Angie, na recepção da clínica, falava contidamente, como conseqüência de um auto-condicionamento para reduzir os ruídos vocálicos; Paulo observava as palavras açuladas, reduzidas, compactadas em sua boca, como uma disciplina cultivada há anos. Incapaz de determinar sua freqüência de decibéis natural. O auto-condicionamento comportamental, descaracterizante, era contraste entre a movimentação frenética dos pés que explodiam em seus sapatos; pequenos pedaços de carnes fugindo das orlas de sua scarpin. Angie engordara para diminuir a voz – para não ser tão inábil socialmente, causar espanto ou atenção; Angie havia construído para si uma imagem de esmaecimento, enquanto em seus pés a gordura se dissipava, pressionando o bico do sapato, ansiando para comer do outro lado da rua um chocolate ao leite.
Paulo notara, também, que o volume de seios, maior, acompanhou o curso do ganho de peso, o que lhe dava uma confortável sensação maternal. Angie às vezes, furtiva ao auto-condicionamento, soltava uma risada lânguida, prolongada, cuja perduração parecia indeterminada. Paulo, taxonomista, via a todos como criaturas, bichos, precisamente, bichos de zoológicos com uma barra de metal onde se entalhavam o nome de sua espécie – Angie via a todos como animais soltos no safári, interativos, aleatórios e acessíveis. Angie passava os dias observando tumores pulmonares, observava as unhas amarelas de Paulo, cuja gradação de tons solares, de dias límpidos, em suas unhas, eram exposições de fósseis que revelavam seu percurso tabacal; Paulo trazia olhos tão amistosos, confundíveis com olhar inquisitivo por seus sapatos (uma observação derivada de anomalia de sua fala).
Bom dia Sr. Paulo – o tom da voz ia à polidez do canto gregoriano, sussurrado nos vaus de um monastério, ou saudação duma gueixa, -
O Sr. tem horário marcado com o Dr. Ramiro? – Paulo estranhava o nome de traficante do possível oncologista.
Onde comprou esses sapatos?
Angie corara, naturalmente sua pele, desviava o olhar – o Dr. Ramiro é um grande médico…
- São pontudos.
Sr. Paulo, – aumentando gradativamente o tom da voz, – qual o horário?
Paulo não confundira a pergunta desconcertante como uma traquinagem para constranger, pensou num método onde pudesse furar o auto-condicionamento de Angie e ouvir seu tom de voz habitual. Angie sentira conforto, liberta, do jugo do auto-condicionamento e, num volteio gracioso de gaivota que muda uma rota repentinamente em seus desenhos de vôo, começou
- São scarpins! Nunca ouviu falar? São lindos. Andei o dia inteiro para encontrá-los, são meus favoritos. Tão desconfortáveis. Mas são lindos, não são?
- a consulta está marcada para as 15:.., diz Paulo como cortando abruptamente a expansão de Angie.
Angie amiudara-se voltando num tom sônico de missa fúnebre, – pode aguardar, em breve o dr. Ramiro irá chamá-lo.
“Pena que os Beatles acabaram”, pensara dr. Ramiro dentro de sua sala.
Lamentar pelo fim de algo é lamentar por uma obviedade, é chocar-se com o final de uma peça cujo final é conhecido. Reclamar de um final irrevogável. Se, o advérbio, é tão pouco discriminatório que pode comportar dentro de si tantas possibilidades e contingências, tão arrebanhador de possibilidades vindoiras, e lamentações, que conjugados, são tanto o combustível quanto o fogo de uma pira.
“Chorar pelo leite derramado”, pensara Ramiro “é uma forma de auto-condicionamento inútil, tanto quanto causador de tensão desnecessária” (perdera a conta de quantas vezes disse “você tem um tumor”). O choro era uma mera birra. Ramiro havia tanto sofrido com seu nome, tanto quanto aprendera a anunciar a notícia com tantas introduções, eufemismos, divagações, métodos completos de se anunciar um câncer, que percebeu que estava dançando para a morte, cujos olhos não se interessam por movimento, mas tão-somente por inatividade.
“Paulo, você tem 3 meses de vida” – depois de desvincular-se de suas artes de prefaciar a morte para seus pacientes, resolveu lhe dar estimativas de vida, como quem oferece o último gomo de tangerina sugerindo que o sugasse, sem pensar nos já consumidos.
Paulo, absorto, pensava no aguilhão em forma de sapato de Angie.
“alguns pacientes, num senso de humor óbvio, e revanche apressada, acendem, ali na sala, como se cometessem sacrilégios, um cigarro”.
Paulo sorriu, por princípios, e também senso estético. Não entendia, como Ramiro, o espetáculo de cada tragada bruta e comicidade desesperada. O médico com nome de bicheiro tinha em mãos um libreto indicando ilhas paradisíacas para gastar os últimos meses – espécie de mapa dos tumores, ilhas para passar réstias de dias pré-mortais. Ramiro alimentou uma vaidade cruel de indicar coqueirais para que o futuro defunto repousasse a espinha dorsal. Em sua narrativa macabra Ramiro descreveria, quimicamente, a composição da água de coco, a vegetação de ilhas tropicais e o farfalhar dos coqueiros. “Para uma malta de cancerosos acendendo cigarros sacrílegos. Fazendo uma nuvem coletiva de fumaça plúmbea cuja óbvia anormalidade com a vegetação produzisse uma ironia situacional perfeita.”
Paulo, preferiu, conscientemente, não absorver ou arquivar a informação de seu tempo de sobrevida, nem visualizar seu sofrimento vindouro. Teve, então, novamente, em sua mente, os pés de Angie, os dedos gorduchos seviciando o scarpin.
-Angie, você compraria scarpins comigo?
Riu lentamente, quase um espetáculo particular, uma risada frondosa.
– Só se prometer não fumar na minha frente.
Com os olhos vívidos, fixos em suas unhas amarelas, dando atenção ao indicador. Paulo, ao observar a robustez de seus dedos, pensara, também, como dialético, em Ramiro, -
“a resignação é manifestação de covardia? É preciso lutar!”
Pensara em voz frenética, em bom tom, dentro de sua cabeça, abrindo uma revista de moda (ou fofocas). Observa dedos macérrimos de modelos mal alimentadas, cujo auto-condicionamento ia à beira da despersonalização. “São zumbis todas as modelos. Autômatos”.
Com essa risada Angie aceitava, tacitamente, a intervenção de Paulo. Uma gordinha feliz, pensava Paulo em sua taxonomia de zoológico; como espelho, Angie dizia a si mesma que Paulo era um babuíno amigável que se postara diante de seu jipe em sua passagem por um safári. Ambos sabiam que rumariam para uma relação baseada na permuta, os dias restantes de Paulo pela Cia de Angie.
Dr. Ramiro, pensava, novamente, em sua sala, “o ofício do oncologista é um mister tão grosseiro quanto o do burocrata vulgar: um arauto da morte. Sem pompas, tendo que bifurcar-se em outros papéis necessários para lidar com a morte – Padre, confessor, público pagante, analista, metafísico pessoal”. Ramiro pensava não apenas na redundância e cansaço naturais de sua atividade, como também em sua feiúra – “um intermediário entre”. Deixou a idéia incompleta, vacante. Do outro lado da rua, via Paulo e Angie expondo seus dentes, todos amarelos, somados, quase uma centena, como cada qual um sol amarelo, cuja trajetória no céu é idêntica, e não menos admirável e anômala – um paradoxo. “nas religiões primitivas temia-se que o sol não viesse, deixando todos em todos em trevas” – se soubessem de sua pontualidade, teriam poupado muitos sacrifícios.
Lamentou não conhecer latim ou ter uma raquete de ping pong.
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