a Lingüinha Indecente da Raposa do Ártico

Uma vez respondi a charada formspringueana “o que é pior, ser evangélico ou ateu?”. Mil perdões pela propanga deselegante da url do meu F.S.

Respota chata e entediante, mas ainda não consegui esgotá-la totalmente. A internet é uma espécie de retorno às cavernas em .html. Um adolescente de 16 anos que aprende a História do Cristianismo com .gifs é um retorno aos rabiscos de Lascaux. A profusão de ‘hauhauhauahs’ e ‘kkkk’ é um retorno em grande estilo à idade da pedra.

Uma bildung áudio-visual com .gifs da Uma Thurman como deusa-mãe da fertilidade salpicada de sangue. É onde usa-se com gosto a expressão “esvaziar o conteúdo” – Oh Dae-su cortando a língua vira um .gif pra algum púbere dizer “que foda, né?”.

A Internet é o Cortiço de Aluísio Azevedo. O adolescente entra com boas intenções (“vou fazer uma pesquisa pro trabalho de geografia“) e desce ao inferno das taras humanas. Sempre reprovei o fetiche físico pelo livro (cheirá-los, abraçá-los, mordê-los), mas retiro com pouca recalcitrância minha velha opinião: folheando uma Britannica em busca do verbete “Marcel Proust”  é possível deparar-se aleatoriamente com a química das algas marinhas; descobrir que um Samurai antes de rasgar o ventre num harakiri tomava dois goles de chá; ou chorar a morte de alguma estrela que só existe porque seu brilho demora milhares de anos pra chegar até a Terra.

Botar as abas do firefox no ramdom mode equivale a se deparar com informações sobre o trânsito em Bogotá, um colombiano inchado reclamando do preço da gasolina numa câmera de trânsito em tempo real, debates calorosos entre Sega-fans e Nitendo-fans “Mario é melhor do que Sonic?”; moças discutindo se devem ou não dar no primeiro encontro. Descendo em seus círculos concêntricos você pode entrar na homepage do Redtube e ver o thumb preview de homem comendo bunda de homem — indo além pode descobrir o pinto de Rasputin conservado em vinagre, como fazer panqueca vegan,  ver leões abraçando seres humanos; cavalos matemáticos; como fazer seu pinto crescer 5 centímetros em 2 semanas; documentários sobre as borboletas do afeganistão (aliás, na internet existe uma google search mórbida sobre os corpos carbonizados dos Mamonas Assassinas).

Um adolescente ingénuo e que dava “bença, vô” pode ser bombardeado por .gifs com charadas mentais do tipo “Se Deus é bom porque____” e um vídeo-brega onde as letras sobem como em telejornal explicando porque a bíblia tem mil contradições.

Na Britannica é possível encontrar o S. Francisco de Giotto; a piedosa face do Santo doando seu manto a um pobre – a face rústica e infinitamente expressiva do aldeão, o modo como o pano se dobra desdobra,  o marrom-camurça do cavalo, a auréola, o morrinnho com casas-brancas e a capela. A ação do tempo transformando o céu azul em um oceano esverdeado com águas-vivas.

Na internet você pode ser bombardeado pela imagem do Ozzy Osbourne fazendo cocô de porta aberta. Acompanhar sadicamente a deterioração do corpo físico da Amy Winehouse “olha aê, hauhauhau, a mina tá só o poh”. Na década de 70 poderiam estar jogando bolinha de gude e tentando descolar uma foto da Betty Faria na Playboy, aos sussuros “hehe será que todas as minas são peludas assim?”.

O cara só queria fazer um trabalho sobre os montes Urais e o Mar Cáspio e é drenado para uma twilight zone com retro-futuristas vídeos dos “100 melhores spanking do cinema”, com Fantasma e o Elvis batendo em bumbuns.

Namoros terminam por e-mails “ahuahua odiei o teu cheiro, vadia” ou tópicos no Orkut “o pinto do meu namorado tem 18 centímetros! rs“. Imagine que no século XIX uma carta de amor desiludido viajava o mar, escapava de lâmias e djins, atravessava montanhas, era carregada numa carroça puxada por um negro melancólico (de nome Genésio) até que a mocinha borrava o vestido com uma densa e cálida lágrima. A carta viajava mais 7 meses para a réplica. A epistolografia atual é receber na caixa de e-mail um “mineirinha fogosa dando pra 3″.

Pra entrar nesse underground kubrickano de hominídeos jogando ossos de mamute para o alto enquanto lutam pela posse de uma poça d’água semi-potável é preciso alguma formação livresca prévia; é possível encontrar cousas interessantes na Internet: Rashid-al-Din Hamadani, Edad de Oro de La Cultura Judia en España, as Catilinárias em latim reconstituído, de como Thomas Hardy erguia excessivamente suas calças para andar de bicicleta; de como as raposas do ártico nos encaram dócil e destemidamente, com 10% da linguinha exposta; de como uma mulher pode amanhecer com desejos heterodoxos; a Michelle Pfeiffer dizendo em 92 “ah, well, (…) almost my face cover…”

Na internet, também podemos nos deparar com a antológica dublagem global do Cobra - “você é um imaturo, um cocô, e eu vou matar você”.

1 Comentário

Filed under Pesadelos

Uma resposta a a Lingüinha Indecente da Raposa do Ártico

Deixar uma resposta

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Modificar )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Modificar )

Connecting to %s