Skammen

Quando olho meu rosto no espelho, vejo uma pseudo-barba e penso na púbis de uma cafetina velha. Isso: um puteiro em Praga ou Budapeste. Os fios nascem abaixo do queixo, e há três fiozinhos soltos na face (já pensei em lhes dar nomes de Santos: Inácio, Isidoro e Belarmino). Herdei a impubescência de meu pai, que tem cara de mestizo mexicano, os olhos secos e duros de um degolador: melhor, o olhar fixo de um tenista esperando uma bola amarela. Barba, em polonês é broda. Broda: a prodigalidade das barbas eslávicas –

e vou subindo uma corda imaginária de meus ascendentes até não-encontrar um polonês.  Broda! Broda! Broda! Broda, meu polonês kafkaniano.

 

(Nunca me apaixonei por uma Natália.)¹

Meu pai nasceu sob a constelação de peixes, gostava de mulatas e foi treinador de um time de futebol feminino: Quase em Some Like It Hot, estar vestido de mulher, entre mulheres, e contemplar suas vergonhas.

O medo da cafonice, o vexame, – escrever é strip-tease em caracteres latinos (não dominei o cirílico).

 

Meu exercício imagético predileto é conceber o inferno – a sensibilidade cristã é pensar no próprio Satã e no inferno (mas voltemos à cafonice): a vergonha é um mecanismo social poderoso, é mais forte do que grilhões forjados por elfas com bucetinhas lisas e róseas [com gosto de licor],

O medo do Brega é a fundação da sociedade, e não há como imaginar o inferno, porque, como Leibniz dizia, vivemos “no melhor dos mundos”: e o tragicômico da cafonice é uma velha bem asseada escolhendo pães.

 

É essa minha primeira versão do Inferno: os demônios não são anjinhos fleumáticos com asas de borboleta e discretos córneos. Os demônios são velhotas bem perfumadas (seus perfumes tem cheiro de antiguidade), com anáguas escondidas, torturando um padeiro numa manhã outonal.

Dante mentiu. “Lasciate ogni speranza voi ch’entrate” não é o portal do inferno. O portal do Inferno é “eu quero o pãozinho mais moreninho”, e o padeiro acrobático separa os brancos dos queimados. Quando uma velha escolhe pães, os anjos silenciam.

 

 

A Vergonha fez os japoneses rasgarem o bucho, as mulheres pularem da Torre de Babel, aqui a segunda versão do inferno – o bulicídio. O segundo inferno são pré-adoescentes em slow motion numa classe escura, numa comédia dos 90’, com dedões apontados, arcadas dentárias leitosas, rindo, rindo, rindo.

Satã é um menino ruivo com dedos de orvalho seco, eternamente apontado para o seu nariz: “narigudo, narigudo, narigudo!” é a segunda lei do Inferno.

A terceira versão é a tuba desafinada. Um maestro que reja. (Reja. <– ♥) uma orchestra empunhando duas facas gémeas. O executor da tuba desafina e o maestro abre uma capa com uma prole infinita de adagas e o golpeia à velocidade dum vivace de Boccherini.

Nós vivemos no melhor dos mundos porque o ridículo nos espreita, ainda mais do que a Morte, o Sono, a Catapora e o Bolo de Fubá: a personificação do diabo é um bolo de fubá assando dentro do ventre dum vulcão, com moedeiras de café caolhas gritando “EU QUERO O MAIS MORENINHO”.

 

¹Penso no meu barbudinho favorito, o chiliquento-mor, – Renato Russo. Uma de suas canções (cujas letras são uma bíblia secular) é Natália. Natália é um lindo nome. Como elixir da cafonice, um livro lambuzado de betume, uma urbana legio sacrorum editio: você lambuza os dedinhos na capa do livro (que será uma mulher barbada) e consulta a mente de Renato Russo. Abrindo uma de suas páginas encontro “se a paixão fosse realmente um bálsamo, o mundo não estaria tão equivocado”. <– ?

4 Comentários

Filed under Digressões

4 respostas a Skammen

  1. em dragão vermelho, doutor hannibal lecter mata um trompetista especialmente ruim de musica.

    e serve no jantar para toda a turma de gran finos que compõe a diretoria da orquestra. “se você não pode ouvir uma boa musica, pelo menos pode comer uma boa comida”, certo?

  2. Fabiana

    Sensibilidade cristã é pensar no amor, T. Consegue imaginar implicações mais severas que as da caridade legítima? Essa ênfase no inferno é herança católica. Desapega ;-)

  3. A herença católica está impress em forma efígie de papas em nosso DNA, Fá.

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