O que tens é só teu
E de nada vale fugir
Privado do sono, passeando pelas samambaias, apertava com o dedão e o indicador uma foto de Sônia no Verão no litoral. Ela usava um vestido solto, magra, tinha os tendões que se esticavam in extremis para alcançar uma ostra. Costumava encher o vestido de ostras, despejava-os no solo e os contava concentrada (ao fundo, um prolongamento massivo do atlântico movia-se formando ondas pesadas e lentas). Ainda concentrado na foto, avistava algumas aves famintas no firmamento – preguiçosas, desvirtuadas e cansadas. Um dia opressivo, onde rajadas solares fustigavam suas pálpebras. Apoiando-se no quintal lembrava-se de Sônia saindo de uma confeitaria. Sônia costumava, todas as semanas, nas tardes de um dia escolhido ao acaso, morder um terço de torta de maçã, bebericar a goles militares um garrafa d’água, levantar-se apressadamente, pedir a conta, desaparecia e ia até o escritório da Light, em frente ao Teatro Municipal. Rodeada de mendigos, resplandescente, atravessava a Libero Badaró; depois de ascender os elevadores, atingia a mesa de Paulo, deixava o restante da torta em sua mesa, sorria timidamente, dava-lhe beijos ritualísticos: nos lábios, pálpebras e bochecha. Sentia algum fiapo de cílio na língua – fazia silêncio, depois falava da gravata do homem silencioso. Havia poucas palavras entre Paulo e Sônia; o tempo inteiro observando-se, em esforços para reter uma imagem precisa de ambos.
Paulo, vamos ver alguma coisa no muncipal?
- Não gosto de Ópera, só tem gordas gritando.
-Todos falam das gg’s, é uma piada clichê. Me envergonha na frente de todos.
-Mas são gordas e gritam.
Morde mais um pedaço da torta, a maçã já inoculada de um azedume suave, próprio da decomposição.
Paulo se aproxima tentando agarrá-la, ela se retrai e o abraça, deixando o peso do corpo evanescer.
- Vamos, eu preciso chorar essa noite.
- Precisamos trocar a capa do sofá.
- E tem consulta para o dentista hoje?
Sônia entendera o recado. Paulo não gostava desses clichês do cotidiano. Hipnofóbico, não conseguia dormir, tendo apenas interlúdios indiscerníveis entre real e ideal. Às vezes se levantava à noite, ficava ouvindo o ressonar de Sônia, olhava os tendões, o cotovelo pontudo e arrogante. Às vezes (ela) torcia os pés, apertava-os e dava nós náuticos. Pensava em acordá-la e confessar que trapaceou – ambos eram viciados em silêncio e observação. Viviam no centro de S. Paulo, odiavam os carros, o municipal, gordas, guardanapos e não conheciam estivadores. Sônia vendia imóveis, não gostava de aperto de mão e tinha ojeriza a pináculos. Teve uma intoxicação por fungos, o que lhe fez desprezar a nutrição, deixando ao seu paladar a resignação semanal de comer um terço de torta de maçã. Sônia sonhava, diária, ou semanalmente, com gravidez, um feto cinzento, como um toco cortado de uma árvore. Acordava desperada, afagava o ventre, olhava o redor, debaixo da cama, até dormir novamente. Sonhava com uma vaca ferida, a língua estirada, agônica, um homem cinzento e alto lhe dizia para ela esfaqueá-la, “dar fim ao seu sofrimento”. O mugido aumentava, aumentava incessante, até tomar conta de seus ouvidos, invadir todo espaço, intensificava em oitavas sucessivamente mais agudas, enquanto ela se precipitava para apunhalar a vaca, Paulo a acordava. Tinha os olhos do homem cinzento, e com a mão direita apertava o coração de Sônia, que adormecia à espera de um novo pesadelo.
Ainda desviando-se de samambaias no quintal de sua casa, prendendo-se à imagem de Sônia a colher ostras. Após noites não-dormidas, pensou em ligar, mas lembrava-se que não gostava da voz de Sandra. Havia algo de hostil, uma hostilidade diligente, um tom inquisitorial e desprezo – não sabia entender porque ela foi embora, deixou um frasco de desodorante sobre a cama, e numa lista compras escrito “tem pudim na geladeira”.
Sônia havia retido uma imagem de Paulo – era uma gravata, em silêncio. Nesse dia ao entrar no banheiro, deslizou, e antes de cair na quina do vaso sanitário, rachar o osso da testa, pensava, em suas rápidas e fagulhantes palavras, uma linguagem pré-tanatóloga, que a persona non grata experimentava, em decorrência de sua expulsão social, uma liberdade – o olho estrábico de Sartre, cujo corolário à noção de liberadade, uma ejeção social, ostracismo, tinha um peso advindo de sua responsabilidade consigo mesma. Estava, antes de despencar no vaso sanitário, posta à frente de seu único juiz, desde o dia que dispensou julgamentos externos – ia agora, ser seu próprio algoz. Talvez o sabonete que estava no banheiro, nos azulejos, que a vez derrapar, interpretasse sua forca: Sônia abominou a solidão do auto-julgamento e almadiçoou a liberdade.
Paulo adormeceu sob as samambaias, sentindo uma carícia vaga no rosto.
Você tem uma certa fixação pela gula.