teardrop

Penso na história da filosofia como música, culinária e entorpecimento.

Antes dos modernos a filosofia sempre foi um estudo metódico, rigoroso e disciplinado para compreender. <- a definição, assaz simplória, é busca canina pelo sentido. da simplicidade de “compreensão” evoluímos para o sentido. quando a Folha relançou Os Pensadores no final da década de 90 eu contava com menos de 18 anos e via os bustos dos pensadores como um colégio semi-secreto que ocultava a verdade. Convenci meu tio a comprar os volumes, que hoje estão em Campinas e todo domingo era uma mini-festa particular. Mas era, a princípio, uma mistura de curiosidade pueril com fetichismo (e respeito irracional ao passado) livresco.

Comecei do começo, no volume Sócrates.

Todos nós, incluindo pedreiros analfabetos ou garis, somos violentados pela curiosidade; há humildade em evitá-las e empreender a vida pela vida e saciar os anseios de amor, afeto e alimentação que possuímos naturalmente. Mesmo os alfabetizados, os doutorandos e a classe falante, não está imune do fetiche físico por livros (já desconfiei que há uma assembléia elípitica de pessoas que cheiram livros e fazem sexo com eles).

Sócrates arruinou minha vida (ou a salvou). Até então tinha somente lido literatura ficcional e a bíblia; costumava (e costumo) fazer um exercício mental (rigoroso) de imaginar fisicamente os personagens bíblicos como videotapes ou hologramas <- imaginava as sardas de Davi, a careca de Eliseu, os pés de pescador de Pedro e as espigas de milho de Boaz.

A grande maioria dos leitores freqüentes da bíblia, incluindo presidiários e donas-de-casa, lêem as sacras escrituras como matéria de auto-ajuda; e é natural que assim o seja > parte da universalidade da bíblia são as experiências pessoais – sobretudo ascéticas, de derrota ou vitória contra eventos quotidianos – narradas e escritas desde a antiguidade que reproduzem, universalmente, o repertório da experiência humana.

Alguns se sentem protegidos pela presença física da bíblica, há quem fume maconha com suas folhas e quem oculte armas ali dentro, mas não são desses que pretendo falar. Voltarei à filosofia.

Uma vez, folheando Hegel, um primo me perguntava o que havia ali. Era um trecho sobre a experiência estética – também é universal, e se existem indivíduos imunes à experiência estéticas, por gentileza me apontem. Ninguém pensa no feio, mesmo quando uma obra de arte se pretende horrível e chocante, um conteúdo mórbido, por exemplo, o autor, ao menos na forma, a pretende estética. Respondi que “eram os pensamentos do autor”, no que ele, dialeticamente, rebateu dizendo “eu também posso pensar pela minha cabeça”. Fiquei em silêncio e até hoje não lhe dei uma resposta convincente. A história da filosofia, que parecia uma sinfonia coletiva com seus métodos e rigores, deixou, com a modernidade pós-escolática, todos sua acurácia e léxico próprio, sua linguagem, para entrar, gradativamente, numa Era de autoria desenfreada, como improvisos jazzísticos; o método é tanto uma via segura, um atalho a ser seguido, ou simplesmente uma parafilia técnica – é uma pergunta, mas não gosto de interrogações.

Vulgarmente o filósofo é um lunático prostrado – diferente de quem anda ou se ajoelha – com um de seus dedos no queixo (não entendo a relação queixo/pensador), rodeado de interrogações que pretende destruir com flechas – as interrogações morrem, se auto-reproduzem ad infinitum ao redor de seu corpo. O filosofia moderna, o ensaísta moderno, o pensador freelancer, parece um jazzista bêbado que ignora as interrogações (como baloons de hélio ao seu redor) e parte direto para afirmações.

A via estética, que sempre foi meu caminho natural, a inclinação de meu espírito, me faz enxergar a presença de Deus o tempo inteiro nas ínfimas coisas; no que se perfaz uma ironia com o infinito – incomensurável – e a simplicidade. O infinito, fato, é simples. Uno e irredutível.

Mas que diabos de infinito é esse!”, perguntaria meu primo. Uma existência eterna? O relógio sem ponteiros? O círculo? O triângulo?

O infinito é intuído por nós – o que há além da morte? O post-mortem é cair como gota no oceano Brahmânico, é o Nada? é se transformar numa formiga num formigueiro? <– minha avó apareceu aqui e perguntou “quer que eu compre uma camisa nova? você não tem camisas. Só Deus na sua vida!”

O nada é um fetiche cognitivo. Ele não existe. Não existe o nada. Nem a ciência o aceita. Ninguém gosta do nada; o nada é o Agnaldo Timóteo dos conceitos; é uma substância não-substância, é um medo que somos doptados no ato de nossa criação. “se alguém ligar aí diz que fui na padaria comprar pão”. Sei que isso parece uma bufonaria cristã, ou uma cabotinice de enlevo causada por um fim de tarde – era Rimbaud que dizia que a eternidade era a morte do sol no poente?

Os primeiros hominídeos, e as crianças, sempre se perguntavam se o sol poderia voltar a nascer  < eu grito, como o grito dos bebês, uma noção biológica de fome e dor, contra o dualismo das luzes e das trevas, o sim e o não “e seja, assim, porém, o vosso falar Sim sim, não, não, porque o que passar disso é procedência maligna”.  O conhecimento e a curiosidade são nossa dor de fome.

Sempre intuí um mundo sem sucessão de sóis e trevas, um firmamento desabrocha para nós, um mundo sem separação, a Civitate Dei, onde a luz de Cristo nos ilumina, <- nunca pude diferenciar epifania de dor de barriga. é como estar grávido de sentido? Não existe uma meia-gravidez. É o diagnóstico inexistente, uma barrigada contra o princípio da incerteza. O gato está vivo ou morto? “cuidado que o Dé tá andando por aí”, diz vovó, Dé é um louco local. Vaga errático nas ruas, invade casas, diz coisas desconexas e é um filósofo das ruas, fétido e cheio de chagas. A esquizofrenia psicótica é um bug total do pensamento, a falta completa de referência de si ou de Deus (é estar no inferno sem sabê-lo). E a ignorância é infernal, e por mais que as contrações da curiosidade nos machuquem, e fujamos de perguntas imbutidas em nossa consciência, desde o dia que aprendemos a pensar (e ninguém pode precisar o primeiro pensamento verbal de um ser humano), não podemos fugir. Os bebês alternam riso e choro antes da fala < a linguagem expressa definições, estados de espírito, necessidade biológicas e mal pode dar conta do que realmente desejamos ou queremos. Os anjos falam? Os anjos riem?

Nunca li os irmãos Karamazóv, mas é ali que um deles afirma que “se Deus não existe, então tudo é permitido”  – já tentaram, por descrições do livro, me elucidar o contexto da frase. “contexto” é uma palavra vulgar, “contextualize”, “é preciso entender o contexto histórico”. O ateísmo é um problema que me dói, me dói porque é o nascimento das coisas, todas elas, a partir do nada; é como o Zezé di Camargo “me diga que tudo não passou de um sonho, que não fui homem pra você”.

O riso é próprio do homem, há até um músculo responsável para desenhá-lo em nossos rostos; entendo o paraíso como um riso ou gargalhadas tão ditosas onde há um esquecimento pleno de si, acompanhado da ausência da angústia ou do medo < mas um riso pode ocultar vermes e agonias que se escondem em nosso ser. O paraíso é como ter cócegas em tempo integral?

Mas isso é esquizofrênico, no riso nos perdemos e rindo avançamos para o abismo.  < a vida em sociedade, a vida amorosa, é uma colisão  brutal de egos, desesperos e violência para manutenção de identidade. Fico como Zezé, novamente, que dizia “é o amor”, e acho que o que há entre os abismos que nos separam, entre a possiblidade de negar ou aceitar, é o amor. Contra a individualidade-de-bebê, histérica, que tudo quer a si e nada enxerga ao redor, só é válido o amor. O amor é infinito, sem-quantidade, é aritmofóbico; no amor só há crescimento e preservação. O mundo está rodeado de demônios, que são seres incapazes de dá-lo ou recebê-lo. São tristes e desgraçados, e nada além de sua morte ou da alheia aspiram.

E o amor tudo suporta.

Deixe um Comentário

Filed under Digressões

Deixar um comentário

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Modificar )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Modificar )

Connecting to %s