Não é Uma carta Suicida

Dedicado às pessoas que amo

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Arritmia

A grande questão que me assombra nos últimos meses é saber separar vontade e liberdade de birra e infantilidade. É uma questão existencialista que sempre redunda na relação da vontade com a responsabilidade, porque Sartre deu à liberdade um caráter quase negativo. É preciso agostinianizar a vontade, a vontade é o modo de se manter íntegro e sincero, mas como diferenciar a vontade pura das birrinhas e demandas alheias depositadas em nós? Como saber se estamos sendo inflexíveis ou quando estamos cedendo apenas para agradar?

Não costumo muito viver a dimensão da vontade, eu quase sempre me sinto emocionado como no  fim da ópera, e como nem todas as emoções são positivas, logo, quando me sinto enojado tenho vontade de agredir.

Com 30 anos de vida percebi que a vida social é uma das coisas mais enojantes que há, como se fosse um xérox mal feito de um mundo perfeito que não possamos viver, e que saber dosar uma vontade correta é possível agir, aqui nesse mundo, com a mesma integridade que deveria viver no mundo original.

Antes de Agostinho e Sartre, penso no Renato Russo de Andrea Doria, de que “o que tens é só seu, e de nada vale fugir”, e sempre, sempre me vejo entravado entre uma infância mental que quer preencher e colorir a realidade com emoções tenras, e outra parte velha que quer ver o mundo queimar o meu caixão.

Nós estamos mesmo brigando por espaço? Sempre me pergunto isso. As palavras machucam tanto assim? As palavras não machucam o corpo, só alma, ok, novidade. Mas a realidade tem o poder te bater na sua alma, no seu corpo, de te humilhar para enfim te mostrar que ela é infinita e inatingível, que rode o tempo que rodar, haverá sempre uma ausência de saciedade.

Acho que buscar a saciedade é birra e infantilidade, mas ser um eterno insatisfeito também o é.

Então, rodeado de luzes, sempre me pergunto o que espero.

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A Estética é o Caminho dos Preguiçosos ou Uma Conversa com um Discípulo

dedicado a Johnny Miranda

“Todo mundo gosta de Platão”.

Boa assertiva introdutória pr’uma peça birrenta. “Eu não gosto”. Todo mundo gosta de Platão e Mussum. Do reaça ao hippie, todos se lambuzam na colméia platônica. Pode haver aqui e acolá mini-críticos de Platão, entretanto, boa parte deles preocupados em dignificá-lo tanto quanto o atacam. Mas há quem diga “Platão era um poeta”, com aquele arzinho de quem falou do Chico Buarque/Bento. “Gosto muito de Platão”, diz a Marcia Tiburi, o Olavo, a Gretchen e minha tia-avó de Cordeirópolis.

Platão, ferreiro da fundição do belo & bom. A estética é o caminho do preguiçoso. Aristóteles começa a metafísica falando da volúpia ocular – o mais abstracto dos sentidos. O incréu pede aos olhos “mostra-me”, porque, o toque do absoluto, teria qualquer coisa de sensual & material, e ninguém quer aspirar o odor do paraíso. Pensamos em formas platônicas eidéticas, mas nos é difícil construir odores imaginários. “A estética é o caminho dos preguiçosos”. A contemplação do belo, atividade paradoxalmente passiva, nos acomoda em macios divãs. A fusão do ético ao estético se decompõe quando descobrimos ser a ética terreno do factual, do virtuoso, da actividade empírica. Um homem bom não pode ser um homem ideal. Inexiste como idéia ou forma matricial – a bondade nasce da vontade-livre, mas é feita de historicidade. Pensemos na supra-bondade como um acto sem testemunhas, que aborrece a  jactância, auto-sacrificial, à maneira clandestina dos agiotas. Esse paradoxo pode esbofetear o pessimista crédulo duma maldade imanente e insuperável –os bons, confraria anônima, sustentáculos imersos da Anima Mundi, estão por toda parte (bares, avenidas, churrascarias e asilos: sempre aprendendo e ensinando), mas dão à biografia de seus actos a revelia do esquecimento. Lapidam uma jóia que serve de retina aos anjos. É dar ao maior de seus inimigos a autoria de suas obras.

Aos homens de têmpera melancólia interessa o que é palpável, o que é sólido, o que é petreoforme, o que é calcificado, e o platonismo aos ascender às esferas das formas e dos códigos originais, pouco pode falar acerca do ritmo ou da assimetria, – para um sensualista, então, o universo é uma obra musageta, assim como o coração uma granada de sangue inundando vasos e veios, e assim, para um ouvido treinado, é fácil auscultar o zeitgeist — através de uma afecção primitiva, como a ansiedade, ou a cólera, ou talvez a tristeza, como numa bateria, verificar os princípios emocionais reguladores de uma coletividade inteira; é fácil, no final, notar que estamos sob uma batuta vacilante, cheia de som e fúria e não, não era assim que terminava, porque esse texto foi terminado displicentemente e sem frete, pra entregar a um jovem com júpiter afligido. “Júpiter domiciliado em aflição” é uma espécie de sina que remixa tanto a capacidade de crescer desordenamente, quanto a de crescer enjaulado como um gorila esbelto e bravio capturado por uma trupe de dândis no final dos século 19. Algo de belo ocorre, e recorremente me aparece à mente, no final do século 19 – o final do século 19  é de um mundo que ainda não conhecia a luz artificial das lâmpadas nem estava sob o domínio de Tesla. Voltando a júpiter em sagitário na 6: a sina de trabalhar gratuitamente para terceiros. Tenho um discípulo literário que encarna com perfeição uma positividade do mito de sísifo, alguém que invarivalmente, chamando-os de ‘aê, trutão’, terá de dar esmolas a contragosto, e fazer truques pirotécnicos enjaulado como um macacão bestial de uma pegadinha do Silvio Santos, saindo de sua jaula cheio de som e fúria, rs.

Será que Shakespeare sabia o quanto parodiaríamos “som e fúria”? Porque a frase é perfeita pra fechar períodos. Um super-caralhão que se bate contra a mesa e finaliza o que não podemos dizer. Wittegensteineamente, essa frase, “som e fúria” é feita de um silêncio gramático, tão cheio de signos quanto esvaziado. Uma tirada pré-irônica. Só voltei pro blog pra fazer exercícios de graforréia, uma espécie de doença que acometem pessoas com planetas afligidos. Alguém que tem na psique um primata cansado de se debater contra o destino – é claro  que essa referência à fatalidade é só metaironia, J.

Às vezes tenho a vaga impressão de que a força motriz da natureza é a preguiça, e não a coragem. Os preguiçosos sempre descobrem tempo para observar o que teria passado desapercebido pelos ocupados.

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Hamlet no Pantanal

Vamos dar as mãos e pensar na percepção.

As novelas globais existem, com alguns sinais de estafa, como um modelo dramatúrgico há décadas. São apreciadas, sobretudo, na Rússia. O mujique Z está rodeado de gelo e musgo, enquanto é bombardeado por imagens do Pantanal, o sorriso de desdém dos vilões, o corcovado, a rocinha & copacabana; conhecendo, dinamicamente, pedaços da história de um país estranho e sorridente. O que sucede à universalidade novelesca é o registro indestrutível. Então, como as novelas serão, teoricamente, reproduzidas, não somente a uma geração, mas a sucessivas gerações, cada detalhe ali contido é registro irreversível, são materializações do inconsciente coletivo ou, melhor, para anti-junguinianos, adeptos das gestalts, macro-formas ou modelos indissolúveis.

Então substitua o enunciado “as novelas globais” por “o observador X”. O observador X, munido de retina e aparato óptico, ao captar sua expressão, poderá retê-la num canto sombrio da memória e, assim sendo ridícula, por exemplo, terá, necessariamente, as feições de representação pitoresca de uma trupe de saltimbancos esfomeados. O problm da psicologia das formas, em detrimento do Jung e o imaginario simbólico, é notação emotiva do primeiro [associações subjetivas] em oposição à ordenação metódica do observador gestaltiano: na psicologia junguiana a percepção é guiada por super-subjetivismos; o observador X, guiado por uma aparato de reinterpretação, pode ter nas olheiras de Rachmaninoff, um exemplo feroz de expressividade, de máculas que consustanciam um grandioso sofredor, um génio atormentado; enquanto o gestaltiano se fixa em seu crânio oblongo, sua temível macrocefalia. Contraponto a óptica à acústica, pensemos na dublagem de vozes — não somente uma heresia fonética, é uma falência da capacidade conciliatória de verter uma cultura à outra. Que tipo de aparência tem o russo que dublou a voz do Stênio Garcia em o Rei do Gado, nos momentos que, extasiado,  toca o berrante e conversa intimimamente com bois, vacas, preás, saguis e sacis-pererês?

E, a expressividade, possui, então, um matiz de tragédia menor, de imprensa marrom, daquele homem que, apressadamente, saiu correndo e deixou o cós de sua calça frouxo, revelando às circustâncias um sabor do irreversível cômico — e aí, registrado pelos olhos do observador X, será sempre, em analogia, aquela sambambaia decorativa na casa do personagem da novela, aquela sambambaia que compõe o imaginário do mujique Z, a macro-forma gestaltiana, um Godzilla sensorial.

O cuidado com o cenário e a expressão, redimido pela prudência e a sabedoria — dois valores universais –, deve ser, como uma teleologia ou finalidade, uma carta de apresentação à morte. Pense, aquela novela com um criado-mudo ridículo não tem a permissão de voltar atrás e subtraí-lo da cena: então é preferível, a título de salvaguarda da imagem pessoal, esperar a morte, – expressão máxima da irreversibilidade -, bem vestido, barbeado e, com todo respeito ritual, sem cheiro de batata frita ou maionese.

O final é pra introduzir o olfato nessa oposição entre óptica e acústica — acredito ser o nariz o menos cultural de nossos sentidos. Os dramas, os dramas comunicam mais aos músculos do que aos outros sentidos, e advogo aqui uma musculatura estética, a singela teoria de que os músculos dos expectadores da primeira montagem de Rei Lear estavam de tal modo tensos, que nem mesmo duas gerações de praticantes de massagem poderiam livrá-los daquela tensão, daquele estupor, dos glúteos, bíceps e trapézios retorcidos: as novelas servem para o mujique relaxar e sonhar, um translado de outra cultura que a si é um micro-massageador, um mecanismo de contraste entre a realidade hostil, – o frio e o musgo -, contra o Pantanal, o Stênio Garcia, e o cabelo repartido do Antônio Fagundes.

Creio que somente um fisiculturista pode contemplar toda carga emocional do último capítulo d’A Rainha da Sucata.

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Do what the panther dare not – zoopitagorismo –

dedicado a Alfredo della Scala

Ceifando todas as camadas de fanfarronice, histeria e teatralização em Nietzsche, vamos encontrar o pequeno pastor luterano dando petelecos no idealismo alemão: um João Batista às avessas que nas suas trapalhadas e bufonarias foi uma profilática para os maiores erros filosóficos modernos (o abstracionismo absoluto, o cienticismo e o socialismo).

Um dos meus exercícios pitagóricos favoritos é conceber duetos imaginários (debates e/ou conversas) entre dois artistas/filósofos/atores (etc). Como Chesterton é espécie de Xuxa entre os conservadores brasileiros ultra-católicos. Pensemos em Chesterton na presença de Nietzsche. Pensemos a sério. Ainda que Chest seja um pensador moderado, uma inteligênica fulgurante, um crítico para todas as oras, um utensílio intelectual, nós também precisamos – igualmente – da fúria dos visionários (mesmo os ensadecidos).  Seria o duelo entre o bom senso e a loucura poética, o encontro entre o peripatético plácido e o louco errático. A ira e loucura, instrumentos fartamento usados pelo doce professor da Basiléia “no sombrio reino de Bismarck”, me parecem contrastar com a loquacidade fluidica & ponderação católica de Chesterton.

Um cachorro chamado dognietzsche, hidrofóbico comedor de carne inglesa, niilista, existencialista, socialista e cientificista, mordendo os tendões apáticos dos indiferentes. É triste, até ironia poética, pensar que o pequeno pastor tivesse perdido a voz, contemplando vôos aquilinos para uma humanidade esplêndida perdida numa individualidade hermética, em tramas absônditas no interior de câmaras mentais, os leões e bestas famélicas presos nesse psiquismo sarcástico & cute do homem moderno.

Quando o bom senso verte-se numa apatia (até insensibilidade), só mesmo o João Batista de Flaubert para nos fustigar os tímpanos.

Gritarei como um urso, como um burro selvagem, como uma mulher que dá a luz! O castigo já está no seu incesto. Deus te aflige com a esterelidade do mulo! (…)

És tu Jezabel! Conquistate o seu coração com o estalido das suas sandálias. Relinchavas como uma égua. Ergueste o teu leito sobre os montes, a fim de realizar seus sacrifícios! O Senhor arrancará teus brincos, teus vestidos de púrpura, teus véus de linho, os anéis de teus pés e os pequenos crescentes de ouro que tremem em tua testa, teus espelhos de prata, teus leques de plumas de avestruz, os saltos de nácara que aumentam tua estatura, o orgulho de teus diamantes, as essências de seus cabelos, a pintura de tuas unhas, todos os artifícios de sua brandura; e faltarão pedras para lapidar a adúltera!

(…)

Deita teu corpo no pó, filha da Babilônia. Faz moer a farinha! Tira o teu cinto, desata tua sandália, arregaça a roupa, cruza os rios! Tua vergonha será descoberta, teu opróbio será visto! Teus soluços quebrarão teus dentes! O Eterno execra o fedor de teus crimes! Maldita! Maldita! Morre como uma cadela!

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Filigranas de Martinica

“A Martinica (em francês: Martinique) é um departamento ultramarino insular francês no Caribe”


Martinique parece ter sido encontrada no Caribe para que todos os Louis, Pierres, Constances e Celines pudessem exercitar suas mais baixas taras e complexos; uma ilha paradisíaca fora dos domínios psicanalíticos.Vivendo de cana-de-açúcar, rum e cacau, esses franceses engatinhariam sobre quatro patas como naquela imagem blakeana ou então fariam uma revolução proletária igualitarista. Uma das amantes de Louis XIV é representada graficamente com um pequeno cão no colo. Recostada num coqueiro, com os fios excedentes dos pêlos do cãozinho teceria filigranas em formato de mosqueteiro e venderia na feirinha de artesanato do Caribe. Vociferando músicas do Judas Priest:

Nella tentazione
Cercando la gloria

Il prezzo da pagare

È la caduta dell’uomo

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a Punição de Lóki

Sigyn (Old Norse “victorious girl-friend”)

 

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